Por que damos valor às vidas humanas? Por que achamos que o mundo deva ser justo? Por que devemos nos importar com a natureza? Quais as motivações das pessoas? E que nome dar a todas as coisas da vida que não entendemos, não sabemos descrever, mas com as quais temos de lidar o tempo todo?




Personalidade: O que fazer com ela?

por Leo

Novamente estou eu aqui especulando e discorrendo sobre um assunto que não conheço tão bem, mas que pretensiosamente penso ter uma perspectiva interessante a compartilhar.
Primeiramente quero distinguir 2 conceitos de personalidade, bastante relacionados porém distintos; um é mais público, vou chamar de "personalidade comportamental", e refere-se às tendências e padrões existentes no comportamento de um indivíduo em relação aos demais indivíduos da população, por exemplo ser inquieto, pretensioso, romântico, organizado, etc.; o outro é mais privado, vou chamá-lo de "personalidade psíquica" e refere-se a como está estruturado o sistema de comportamento do indivíduo em resultado a suas tendências biológicas, suas influências ambientais (especialmente as sociais), suas experiências de vida, etc. geralmente descrita em termos de conceitos como estratégias, mecanismos e sentimentos.

A personalidade comportamental

Embora o comportamento humano seja muito complexo, é fácil observar que ele tem muitos padrões. Tem regularidades, tanto no mesmo indivíduo, como entre indivíduos. E mais, estas regularidades muitas vezes não são isoladas e independentes, elas formam padrões complexos que se expressam em diversos aspectos da vida individual. São destes padrões que estou falando, queremos saber quais as características de alguém que melhor descrevem e prevêem seu comportamento. Há muitos estudos e teorias psicológicas a respeito de caracteres (traços) e tipos de personalidade, da sua aferição, utilidade preditiva etc, embora ainda seja uma área muito controversa.


É interessante ver como este é um conceito bastante social, tanto pelos tipos que são identificados socialmente, muitas vezes baseados em rótulos, personagens e estereótipos, mas principalmente porque é relativo ao comportamento das outras pessoas do meio, uma pessoa ansiosa é uma pessoa significativamente mais ansiosa do que as outras daquele grupo. O fato de ser assim tão social é uma razão para lidar com ela com cuidado, pois é feita por pessoas com parâmetros e valores específicos, que podem não coincidir com os seus, ou os que interessam na situação em questão. Adjetivos comportamentais muitas vezes tem mais o propósito de comunicar e compartilhar impressões subjetivas do que ser uma descrição objetiva e verificável do comportamento de alguém.

Um fenômeno notável relacionado a isto é que muitas vezes adotamos estes rótulos para nós mesmos, talvez porque queiramos ser aceitos no grupo, talvez porque achamos que é uma boa descrição para nosso próprio comportamento. Isto não é necessariamente um problema, mas pode ser um obstáculo quando ao nos apegarmos afetivamente a este rótulo, impedimo-nos de nos desenvolver, ficamos fixados naquela característica porque gostamos de ser caracterizados assim; não sei se isto tem um nome, eu chamo de "auto-determinação descritiva".

Este tipo de caracterização pode ser interessante e muito útil para se entender pessoas e conviver socialmente mas é bom levar em consideração que o comportamento tem uma estrutura complexa, as pessoas não se comportam com o mesmo padrão em todos os contextos, o que expressam nem sempre reflete diretamente o que pensam e sentem, pessoas diferentes tem padrões diferentes, e estes padrões mudam no tempo pois isso depende de algo mais profundo, a tal personalidade psíquica que explicarei.

A personalidade psíquica

A personalidade psíquica seria o que propriamente somos "por dentro"; seria a estrutura que faz com que apresentemos o comportamento que efetivamente manifestamos (a personalidade comportamental), dependendo das circunstâncias, e também aquele que permanece coberto, escondido, como nossos pensamentos e sentimentos. Ela é bem mais difícil de ser observada, e sua descrição acaba sendo um tanto quanto hipotética, uma vez que ainda não temos meios muito confiáveis de inferir estas características profundas das pessoas e nem mesmo teorias bem desenvolvidas e bem estabelecidas para descrevê-las.


A personalidade psíquica envolve muita coisa, mas é basicamente a maneira como, em face da sua constituição biológica, influências externas e experiência de vida, você lida com o mundo e consigo mesmo. São estratégias de enfrentar a realidade e resolver situações, gostos e preferências, mecanismos de defesa, seus sentimentos, como você os entende (ou não) e o que você faz em relação a eles, sua auto-imagem, sua atitude diante de acontecimentos bons, ruins, novos, velhos, etc., o modo como interage, trata as pessoas e se relaciona com elas, suas motivações, suas ambições e preocupações de vida, seus valores, seu modo de se expressar, seus hábitos, enfim, sua capacidade e maneiras de experenciar, lidar, conviver e aproveitar as diferentes situações com que sua mente se depara.

Estudos com neonatos mostram inúmeras diferenças entre indivíduos já logo após o nascimento. Estudos com gêmeos mostram que muitos traços de personalidade (comportamental) têm forte herança genética (chegando a 80% em alguns), mostrando que já viemos ao mundo cheios de predisposições em relação a este jeito de ser, e mais, a maioria tende a se tornar mais forte com a idade. É bom lembrar que o fato de algo ser biológico não significa necessariamente que é imutável, mas significa sim que as pessoas com aquele biotipo geralmente têm aquela tendência comportamental em um grau significativo. Diversos outros estudos mostram influências importantes de história de vida (como experiências infantis, traumas, padrão de relacionamento com os pais) e de meio social na determinação de vários caracteres.

Embora a personalidade tenha aspectos mais rígidos, muitos são plásticos, e os modificamos pelo processo de educação, pela adoção e imitação de valores, gostos, hábitos, etc do nosso meio social, pelos reforços e punições exercidos por nosso meio social em nós, por outros tipos de pressão e coerção social e por algumas opções que fazemos mais voluntariamente (como por exemplo escolher este meio social). Desenvolvemos assim novas maneiras de lidar com as diferentes situações, novas maneiras de encará-las, de experenciá-las, principalmente quando queremos, ou mais ainda, quando precisamos.

Nossa programação biológica não nos prepara completamente para o mundo, só dá certas diretrizes básicas para favorecer nossa aptidão biológica, temos de aprender durante a vida como conceitualizar o mundo, os significados das coisas, seus valores, o que procurar e como agir. No entanto, há inúmeras maneiras de se fazer isto, algumas mais adaptativas, outras menos, e é com este tipo de escolha que nos deparamos o tempo todo na vida, e que ao fazermos nos tornamos um pouco mais de um jeito ou de outro. Muitas destas pequenas escolhas, voluntárias ou não, fazem-nos o que somos.

Estamos equipados com este conjunto de ferramentas de lidar com o mundo, e seremos mais bem sucedidos se estivermos em situações nas quais nossas ferramentas são adequadas; podemos mudar de situações, e podemos desenvolver novas ferramentas. De qualquer maneira é sempre bom saber no que se é bom, quais são suas habilidades e o que se pode fazer com elas.

E o que fazer com ela?

Resolvi falar de personalidade principalmente para falar uma coisa que acho importante, que personalidade não é algo essencial e imutável, personalidade é algo que desenvolvemos e podemos direcionar este desenvolvimento. Podemos escolher nossa maneira de ser em um grau maior do que se imagina. Personalidade não é simplesmente algo que temos, é algo a ser desenvolvido!

Minha proposta é ver a personalidade menos como um conjunto de características estruturais rígidas, e mais como um repertório bastante expansível de habilidades de lidar com diferentes situações. E acho que cabe aí pensar seriamente na maneira como lidamos com determinadas situações, e se de fato não haverá maneiras melhores. Pensar na personalidade da maneira como pensamos em habilidades motoras por exemplo (andar, nadar, andar de bicicleta, tocar um instrumento).


E sim, estou dizendo que há formas de ser melhores do que outras, algumas formas de ser e lidar são mais adaptadas às situações da sua vida do que outras, permitirão que você aproveite ela melhor, experencie ela de maneira mais agradável, transforme situações desfavoráveis em favoráveis, tenha mais liberdade e ao mesmo tempo mais controle sobre sua vida.

Entre estas capacidades e habilidades que me parecem desejáveis eu destacaria:
- Capacidade de procurar experiências boas em diferentes situações
- Capacidade de identificar, admitir, enfrentar e manejar os próprios sentimentos
- Capacidade de ver as coisas de diferentes formas
- Capacidade de procurar e criar soluções novas
- Capacidade de ser ativo e agir
- Capacidade de se motivar
- Capacidade de administrar seus problemas práticos
- Capacidade de interagir socialmente de maneira mutuamente proveitosa
- Capacidade de proporcionar boas experiências a outras pessoas
- Capacidade de entender outras pessoas e lidar com suas diferenças e peculiaridades
- Capacidade de se relacionar com outros, também de maneira mutuamente proveitosa
- Capacidade de se defender de ameaças e situações complicadas (mecanismos menos restritivos e prejudiciais são melhores), e flexibilizar e refinar estes mecanismos à medida do possível
- Capacidade de atenuar estresse, conter sentimentos negativos e ansiedade
Também daria alguma ênfase na auto-determinação de crenças, valores, motivações, gostos e planos de vida.

Infelizmente existe uma parte ruim: a maior parte dos nossos traços de personalidade não são fáceis de mudar, seja porque são traços mais rígidos e consolidados, seja porque temos reforçado aquela característica por toda a nossa vida, seja porque tem uma importância emocional para nós, seja porque temos medo de mudar.

Para mudar é preciso querer ou precisar de verdade, porque é bem custoso psiquicamente mudar sua própria estrutura, e por vezes você mesmo tentará resistir à mudança, afinal estará optando entre deixar de ser quem você é para ser outra pessoa. E não basta querer, assim como aprender a tocar um instrumento, muitas vezes é preciso de muito esforço e prática; diversos traços de personalidade, particularmente os relacionados a emoções, seguem uma dinâmica própria, às vezes bem difícil de entender e controlar, muitas vezes precisamos de ajuda para conseguir domá-los (como um psicoterapeuta e às vezes psicofármacos). É preciso também procurar os meios para facilitar este processo, encontrar um caminho que leve você aonde quer; muitas vezes este caminho já foi trilhado por outras pessoas que estão dispostas a ajudá-lo (às vezes por um preço). Uma coisa que pode ser bem encorajadora e facilitadora é prestar atenção e aprender com as pessoas que já estão lá, ou já passaram por isso, nos sentimos mais amparados, motivados e confiantes estando num meio social mais próximo de onde queremos estar.


E é isto, aqui estou eu enfrentando minha própria resistência à mudança, e tentando encorajar outros a se mudarem também na busca de uma vida melhor, isto é, uma vida que vale mais a pena ser vivida.

p.s. Acho que também é importante falar que sua personalidade deve ser útil a você. Cada mecanismo, hábito, gosto, sentimento são bons se proporcionarem mais bens do que males, muitas vezes desenvolvemos sistemas para nos prevenir de coisas ruins (como ameaças ou constrangimento social) mas acabamos nos privando de liberdade, motivação e oportunidades de nos sentirmos bem. Outras vezes desenvolvemos sistemas para priorizarmos certas coisas boas, mas acabamos nos privando de outras que seriam melhores. Enfim, é preciso lembrar que nossa personalidade é feita por nós para nós.

7 Comentários:

Anonymous Jonatas disse...

Excelente artigo, Leo!

sábado, agosto 07, 2010 7:52:00 PM  
Blogger Fulano 46574939-4 disse...

Gostei do seu artigo e principalmente a parte das habilidades desejáveis de acordo com uma pergunta simples o que fazer com elas? Parabéns.

sábado, agosto 07, 2010 9:42:00 PM  
Blogger Rafael disse...

ei leo, gostei bastante do post. tem uma coisa que eu gostaria de ver: vc escrevendo ficcao. vc poderia por exemplo pensar num conto sobre uma pessoa que tenha conflitos entre a personalidade psiquica e a personalidade comportamental. exemplos ajudam a entender e pensar e tentar descrever um caso concreto pode aprofundar suas teorias, alem de ser bem divertido.

tenho outra sugestao: mudar o layout do blog pra deixar o texto mais largo tornaria a leitura mais confortavel. aqui no meu navegador o texto fica numa faixa bem fina no centro da tela.

quarta-feira, agosto 11, 2010 9:52:00 AM  
Blogger Leo disse...

Infelizmente há muito tempo que não consigo escrever nada narrativo, é um bloqueio mesmo, bom, faz um bom tempo que eu não tento também...
E particularmente embora seja talvez um estilo menos agradável e acessível, gosto bem mais de dissertações pela precisão; narrações às vezes confundem aspectos verdadeiros e fictícios de maneira pouco definida.
Mas vou pensar a respeito.

O Layout talvez já possa ser aumentado mesmo, acho que pouquíssimas pessoas ainda usam 800-600 né? Talvez eu possa adaptar à resolução, vou ver se resolvo isto.

quarta-feira, agosto 11, 2010 12:54:00 PM  
Blogger Leo disse...

Rafael, vi o TED Talk do Matthieu Ricard que vc me indicou e achei mto bom, complementa bem o que falei no post.

Matthieu Ricard on the habits of happiness
http://www.ted.com/talks/lang/eng/matthieu_ricard_on_the_habits_of_happiness.html

domingo, agosto 22, 2010 6:42:00 PM  
Blogger Renan Oliveira Andrade disse...

Fala Leo,

Tudo bem? Acabo de visitar o teu Blog e apesar de ainda estar trabalhando com tecnologia e pretender posteriormente trabalhar com Administração de Empresas, simpatizo demais com o tema Psicologia e pretendo acompanhar o blog.
Não estou muito atualizado sobre o que você tem feito, mas compartilho a sua crença de que podemos tornar o mundo um lugar melhor.
Um dos pontos mais frágeis que vejo na medicina diagnóstica atual, é a posição tímida dos psicólogos bem como do Conselho Regional de Psicologia, os médicos muitas vezes se colocam como donos da verdade sentenciando diagnósticos na vida de pacientes, que talvez por um simples problema emocional, podem ser medicados e tratados como doentes pelo resto de suas vidas.
É possível que essa timidez seja justamente por lidar com conceitos mais tácitos do que explícitos. Ainda assim, creio que deva haver um movimento para questionar e desmistificar os diagnósticos médicos. Bem como deve se criar um método para lidar com essas definições e conceitos tácitos e dinâmicos.

Abs

segunda-feira, junho 27, 2011 4:02:00 PM  
Blogger Leo disse...

Oi Renan! Infelizmente este meu blog está semi-abandonado, isto tem a ver com questões pessoais e filosóficas também.

Sobre tornar o mundo melhor é justamente por pensar sobre esta questão que tenho me dedicado a outras coisas, e pretendo fazer uma reunião este ano para discutir o assunto, convidarei você.

Sobre psicologia e psiquiatria, é uma questão bem complexa. Existe atualmente uma tendência a patologização de características. Podemos pensar no que significa doença e doença mental, é qualquer característica desadaptativa? Depende de ela ser incomum, se ela for comum é normal? E se o indivíduo não se sentir incomodado e até gostar dela? E se ela só for ruim para os outros ou naquela cultura?

Na psicologia existem muitas discordâncias a cerca de métodos e abordagens teóricas, e há linhas que rejeitam quase completamente a noção de doença mental. Por outro lado, há problemas de rigor epistemológico, justamente por tratar de noções que não são tão diretamente observáveis, cria-se um problema de subjetividade na interpretação, e que raramente é abordado por métodos empíricos mais controlados, de maneira que as teorias às vezes são bastante especulativas e baseadas em conceitos vagos ou duvidosos...

terça-feira, junho 28, 2011 2:33:00 AM  

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