Por que damos valor às vidas humanas? Por que achamos que o mundo deva ser justo? Por que devemos nos importar com a natureza? Quais as motivações das pessoas? E que nome dar a todas as coisas da vida que não entendemos, não sabemos descrever, mas com as quais temos de lidar o tempo todo?




Sinopse de uma civilização

por Karynn

Quando uma sociedade nasce
Traz consigo a possibilidade
De acúmulos de lixo
Monstruosamente incontroláveis

Jogue bichos humanos num mundo
Eles tirarão algumas conclusões
Sinalize, com neon, as entradas.
As saídas, obscureça-as
E amaldiçoe suas chaves

Surgirão centenas de psicochagas
Que não serão imediatamente notadas
Nem posteriormente
Talvez urgentemente
Caso falhe, o arsenal
De mecanismos de controle
De surto existencial

Haverá assustadora proliferação
Torça para que cesse...
Torça para que cesse!
Torça mesmo!

Sistemas de auto controle

por Karynn

A saciedade é um mito
A sobriedade é o luto
A sanidade é um fetiche
Compreender é muito fundo

Desaparecer é o místico
Suportar é o bíblico
Destruir é o ingênuo
Reinventar é artístico
Inventar é um absurdo

Submeter-se é franzino
Desanimar é ilícito
Transcender é genial
Fugir é um vício

Esta circularidade é uma jaula!
Mas incomodar-se é biologicamente inútil!
Por sorte,
A adaptação é uma ferramenta inata
Abundantemente disponível
E provavelmente biodegradável
Que dissolve este desconforto
E o transforma em energia renovável

Por que as pessoas inteligentes não dominaram o mundo?

por Leo

Vamos supor algumas hipóteses:
1) Existem pessoas muito, mas muito, MUITO inteligentes no mundo.

2) A civilização humana não parece assim, digamos... muito bem organizada; parece que seres humanos importantes vivem fazendo besteiras por aí.

3) Uma fração das pessoas muito inteligentes é também ambiciosa E tem opiniões firmes a respeito de como o mundo deve ser E se importa o suficiente para fazer algo a respeito.

Daí minha pergunta é: Por que o mundo não é regularmente dominado por pessoas muito inteligentes???

Ok, admito que é uma pergunta um tanto esdrúxula, mas estou falando sério, e vou tentar justificar-me.

Primeiramente, o que eu quero dizer com dominar o mundo?
Dominar significa que você é capaz de fazer valer a sua vontade sobre as demais. Não precisa ser pela força, longe disso, basta que se tenha habilidade para se manejar a situação a seu favor. Dominar o mundo pressupõe que alguém (ou algum grupo) possa atingir tal grau de superioridade de poder que seja capaz de subverter toda a hierarquia política estabelecida. Isto parece ser MUITO difícil, pois imagino que quanto mais você se aproxima de dominar o mundo, mais competentes devem ser seus concorrentes interessados no mesmo objetivo. Ou seja, para dominar e manter o poder você tem que dar um jeito de vencer, eliminar, dominar ou evitar a elite da competência política no mundo.

Por que alguém iria querer dominar o mundo?
Para impor sua vontade. E por que alguém iria querer isto? Bom, esta é uma questão psicológica. Eu presumo que para satisfazer um ego insaciável, uma enorme vontade de poder, de engrandecer a própria imagem ou ainda, por um fortíssimo sentimento de vingança, que não deixa de ser também uma imposição do ego sobre os demais. Estas seriam motivações psicopáticas. Uma motivação mais racional poderia ser por um dever ético, bom, é verdade que a noção de dever não é racional, mas quero dizer que seria uma forma mais objetiva, dominar a fim de concretizar o bem (o que quer que se entenda por bem...).






Por que alguém precisaria dominar o mundo?
Porque as vias sociais tradicionais podem não ser suficientes para o que se deseja; segundo as organizações políticas mais comuns, para alguém ganhar poder a pessoa deve ir angariando admiradores e confiança dos que instituem seu cargo (seja a população, seja a aristocracia política). Esta via tem muitas desvantagens, ela compromete o pretendente aos interesses dos seus apoiadores políticos (efetivamente dividindo seu poder com eles), requer que ele mantenha uma persona (imagem social) demagógica que de alguma forma motive ou justifique sua colocação, e o expõe escancaradamente a todos os que ambicionem sua posição ou se oponham às suas políticas, para que atentem contra ele, o deponham ou matem. É por isto que alguém poderia querer dominar o mundo por vias alternativas - que não precisa ser necessariamente pela força (violência), creio que existam outras maneiras.

Por que alguém teria de ser inteligente para dominar o mundo?
Bom, é importante ressaltar que não estou falando de uma inteligência meramente acadêmica, estou falando de uma pessoa com uma alta capacidade cognitiva em diversas áreas, alguém que seja capaz de enfrentar problemas difíceis da natureza que forem, de questões metafísicas a manipulação social a malabarismo de gelatina. Assim sendo, acho que esta seria a capacidade mais importante ao tentar dominar o mundo, pois alguém nesta condição poderia entender e tentar solucionar qualquer problema que aparecesse, por mais que não se fosse especialmente bom naquilo.

Como seria se pessoas inteligentes dominassem o mundo?
Difícil responder, mas viveríamos numa noocracia, um governo de sábios, ou inicialmente uma geniocracia, uma vez que estou considerando a hipótese de um ou alguns gênios tomarem o poder. Eu suponho que pessoas inteligentes seriam mais aptas a resolver os grandes problemas da sociedade, criar políticas eficientes, teriam um entendimento mais realista, completo e profundo do funcionamento social, teriam preocupações éticas e um sistema ético bem elaborado, e seriam capazes de separar seus interesses pessoais dos interesses da humanidade. Infelizmente provavelmente algumas destas suposições não se concretizaria.
Haveria ainda uma questão complicada de como representar os valores éticos e políticos da população, que é um dos maiores valores da democracia. Este seria um problema adicional para ser resolvido.


Querer dominar o mundo não parece uma atitude meio infantil, narcisística e megalomaníaca baseada numa concepção simplista da sociedade?
Hummm... talvez. Mas isto realmente impediria que alguém dominasse o mundo?



Supondo então que as principais dúvidas tenham sido esclarecidas:
Por que será que o mundo não é regularmente dominado por pessoas muito inteligentes???

A resposta não me parece óbvia. Vou considerar diversas possibilidades:


1) O mundo já foi dominado por pessoas inteligentes e só eu não percebi.
Bom, esta resposta é ou uma negação do meu segundo postulado (o de que o mundo não funciona muito bem), ou a defesa de que mesmo tendo dominado o mundo, estes seres inteligentes não são capazes de fazê-lo funcionar de maneira que me pareça adequada ou pior, não estão interessados nisso. Este argumento é bastante semelhante ao argumento epicurista contra a existência de Deus: se Deus quer ser bom e não pode é impotente, se pode e não quer é malevolente, se não pode e não quer não deveria ser chamado de Deus. Vou dividir esta possibilidade em duas:


1.1) O mundo foi dominado por pessoas inteligentes, mas elas não conseguem dar conta do recado.
Isto é possível, mas pouco provável. Entretanto dada a minha desinformação a respeito da ocorrência de inteligências excepcionais assumindo cargos de alto poder, vou supor que estejam em posições de menor exposição pública ("illuminati"? Ô_Ô). Caso seja assim, por que será que não conseguem dar conta? Será a dinâmica da sociedade, da política e da economia assim tão incontroláveis? Afinal, lembre-se que estamos falando de pessoas que foram capazes de dominar o mundo! Por que será que não conseguiriam administrá-lo eficientemente? Faltaria massa crítica? Haveria muita discordância entre eles???
Me parece mais provável simplesmente reduzir esta posição a uma visão mais comum de que quem quer que sejam os poderosos controlando a sociedade não são tão inteligentes ou competentes assim. Ou seja, esta posição nega o primeiro postulado.


1.2) O mundo foi dominado por pessoas inteligentes, mas elas não estão preocupadas em organizá-lo, estão preocupadas com outras coisas.
Isto é um tanto mais provável. Mas por quê? Na minha perspectiva, uma pessoa muito inteligente, que tenha chegado a dominar o mundo deve ter sérias preocupações a respeito de qual a direção tomar. Afinal, dominar para o quê? Será que a ética realmente não aponta necessariamente para uma administração social diferente da que vemos hoje? Será que a inteligência não leva necessariamente a preocupações éticas? Qual seriam as motivações dessas pessoas então? Será que de fato o poder corrompe as pessoas e tão logo alguém se encontre numa alta posição, esta pessoa será dominada por seus desejos mais instintivos e egoístas?


Certamente, na história da humanidade grandes líderes muito inteligentes já assumiram o poder, podemos analisar a diversidade de suas condutas a fim de ver o perfil destes, suas motivações e qual foi seu destino, ie, porque não conseguiram manter o poder sob os mesmos interesses. Esta pergunta fica em aberto: Quais foram as motivações dos grandes homens poderosos inteligentes do passado?


Talvez as trajetórias que conduzem alguém ao poder não costumem levar as pessoas a preocupações éticas mais profundas. Talvez estes homens tenham se ocupado primariamente com preocupações mais imediatas, como suas próximas conquistas e a própria manutenção do seu poder, sem pensar tanto numa escala maior. Afinal, dominar deve dar bastante trabalho.


2) O mundo não foi dominado por pessoas inteligentes.
Bom, esta é minha proposta principal. E por que será que o mundo não foi dominado?

2.1) As pessoas inteligentes não conseguem dominar o mundo.
Acho que esta é a melhor resposta. E a principal evidência dela é a incompetência dos movimentos de resistência no mundo inteiro, mesmo nas condições ideologicamente mais hostis e absurdas. Ver o caso da União Soviética sob Stálin, ou da Alemanha nazista. O número de tentativas de atentados, movimentos de resistência organizados e contrarevoluções na história parece ser modestamente pequeno além de terem sido pouco eficazes. Levando em conta que uma revolução é uma ótima oportunidade para mudar a ordem das coisas, para que um grupo assuma o poder e institua seus ideais políticos, parece que de fato, o que falta é a competência (a hipótese 1 deve ser falsa neste sentido).

E por que falta competência?
Creio que seja porque pessoas as inteligentes costumem ter algumas características que as impedem de ser politicamente eficazes: são inseguras, ou indisciplinadas, ou pouco práticas, ou irrealistas, ou politicamente inabilidosas, ou intransigentes, ou competitivas, ou desorganizadas demais. Basta ver a maior parte dos grupos intelectuais e movimentos estudantis. Isto vai um pouco na linha de uma frase do Russell:

"The fundamental cause of the trouble is that in the modern world the stupid are cocksure while the intelligent are full of doubt."
Bertrand Russell, Education and the Social Order (1932)

Possivelmente a trajetória de criação e personalidade de pessoas inteligentes não favorece que desenvolvam tantas habilidades e motivações intelectuais e políticas ao mesmo tempo.

Por outro lado, eventualmente na história da humanidade, ocorreram situações em que uma ou mais pessoas muito inteligentes assumiram o poder. Por que elas não mantiveram o poder nas mãos de outras pessoas inteligentes? Por que o poder de pessoas inteligentes não é estável? Será que elas também não tiveram esta preocupação? Será que suas motivações não favoreciam que passassem o poder para outras pessoas inteligentes? Será que simplesmente não conseguiram sucessores a sua altura? Afinal, conseguir sucessores não é um problema fácil.

Talvez o problema seja difícil demais para um ou mesmo alguns poucos seres humanos, dominar o mundo e ainda administrar a humanidade é um trabalho grande demais.
Isto parece bem razoável. Não deve ser um trabalho fácil. Afinal, para este fim a humanidade se divide em centenas de governos com milhares de cargos. É claro que não esperaria que eles controlassem tudo, apenas que dessem as diretrizes principais. Mas de qualquer maneira é uma possibilidade razoável. Talvez seja uma mistura de falta de inteligência, número de pessoas e organização. Curiosamente isto parece ser factível. Hum....


E há ainda a possibilidade de nossa sociedade ser de alguma forma protegida contra dominação de inteligentes. Como se a nossa sociedade fosse constituída de tal forma que sempre que alguém muito inteligente tem esta idéia e resolve fazer algo a respeito, ele é rapidamente detectado e eliminado (ou talvez distraído com um problema intelectual que ocupará sua toda sua vida produtiva e não acarretará em nada de útil). Isto me soa conspiratório demais para o meu gosto.



2.2) As pessoas inteligentes não querem dominar o mundo.
Finalmente, talvez as pessoas inteligentes não estejam tão interessadas ou motivadas em dominar o mundo. Afinal, teoricamente estas pessoas são perfeitamente aptas a se darem muito bem no mundo atual, de maneira que não vale a pena tentar dominar o mundo. Isto é coerente com a idéia de que pessoas racionais fazem aquilo que é vantajoso para si, o que geralmente não envolve se importar tanto assim com os outros. Além do que dominar o mundo dá muito trabalho, é muito perigoso, e provavelmente exige o resto da sua vida, se você conseguir.
Tampouco parece ser psicologicamente vantajoso:
A não ser que se tenha um tremendo distúrbio de obsessão narcísica ou ética, acho que pessoas inteligentes conseguem recompensas suficientes em atividades bem mais factíveis, em particular, a maioria dos intelectuais se contentam em ficar discutindo idéias, lendo e escrevendo e não tem pretensões megalomaníacas.



Conclusão:
1.2) Pessoas inteligentes que chegam no poder não costumam se preocupar muito com questões éticas amplas.
2.1) Pessoas inteligentes frequentemente tem características de personalidade que impedem que cheguem ao poder.
2.2) E as pessoas inteligentes que poderiam chegar ao poder provavelmente não estão muito interessadas.
E 2.1 de novo) Se por acaso houver pessoas interessadas, elas são em quantidades insuficientes para dar conta do recado, porque o problema é bem difícil...
Enfim, é a vida.

Mas resta a questão, por que a permanência de pessoas inteligentes no poder não é estável? Por que uma vez que um governo de pessoas inteligentes se estabelece, ele não se mantém? Essas pessoas não costumam ter uma visão estratégica em relação a isto? Ou é tão difícil assim conseguir sucessores aptos?

O problema da psicanálise

por Leo

(também publicado em inglês no blog Brainstormers)

A psicanálise sempre me intrigou muito, desde que tive contato com ela pela primeira vez no ensino médio até hoje quando tenho alguma condição de contextualizá-la e compará-la em meio às outras ciências da mente. Não há dúvidas que ela seja um assunto controverso, tanto nos seus aspectos téoricos, quanto metodológicos, quanto práticos; as pessoas parecem ter uma reação um tanto cética e sarcástica à idéia de que possamos ter desejos incestuosos (inconscientes) por nossos pais, de que um bom modelo de psicoterapia consista basicamente em dizer "fale mais sobre isto", ou ainda que alguém esteja precisando enfrentar seus sentimentos reprimidos.

Devo dizer no entanto que acho que a psicanálise deve ser levada a sério. O motivo principal é porque acredito na realidade do seu objeto de estudo; acho que temos fortes evidências de que o inconsciente, o significado dos sonhos, a repressão, a hipnose, os mecanismos de defesa, os transtornos de personalidade, os sintomas neuróticos são fenômenos reais, e que não são tão satisfatoriamente explicados por outras teorias. A psicanálise me parece ser a única teoria (juntamente a suas variantes) que pretende explicar de maneira ampla como elaboramos nossas representações simbólicas e emocionais diante dos problemas que a vida nos impõe, como isto forma nossa personalidade e afeta nosso comportamento, e das suas implicações sobre a natureza do nosso aparelho psíquico, da nossa identidade e da sociedade e cultura em geral.

No entanto é preciso se ter um cuidado muito grande ao se ler Freud e seus seguidores, não porque não foram investigadores criteriosos (acho que Freud tinha um nível de rigor bem alto), mas porque viveram numa época em que nosso conhecimento sobre o cérebro e a evolução humana ainda eram muito, muito primários, de modo que ainda não havia como saber claramente que tipo de estruturas, mecanismos e funções (fisiológicas e adaptativas) o cérebro humano implementava, e só era possível se especular. Mas mesmo tendo toda a fé no projeto das neurociências e na psicologia evolucionista, acho que a psicanálise mantém seu nicho explicativo, o de descrever, explicar e analisar como se formam as representações simbólicas, como é sua dinâmica, e como são relacionadas aos conteúdos da consciência. Também tenho sérias dúvidas se fenômenos como estes poderiam ser estudados com tal profundidade de alguma maneira que não a análise do discurso individual.

Infelizmente a psicanálise parece ter parado um pouco no tempo. Freud e seus seguidores não foram tão bem sucedidos em criar uma ciência quanto em criar uma seita profissional, assim como diversas outras escolas da psicologia, e que, ao invés de terem se concentrado em verificar, testar, fundamentar e confirmar as teses originalmente propostas, incorporar descobertas de outras ciências, abandonar teses não verificadas, se contentaram em ler seus fundadores e segui-los ortodoxamente. De forma que ao invés de progredir, se tornar um corpo teórico robusto, aberto e integrado ao resto do conhecimento humano, foi se degenerando, se fechando, obscurecendo e obsolecendo.

Tenho a impressão de que algo se deu muito errado. Os psicanalistas não me parecem ter o espírito investigador de Freud, sondando, apalpando, experimentando, e descrevendo a forma das estruturas subjetivas; parecem-me muito mais na posição de observadores, que se confortam em procurar confirmações das suas crenças; a psicanálise parece ter se tornado um jogo místico como a astrologia ou jogo de búzios e os psicanalistas entusiasmados com sua erudição hermética e distintiva parecem delirar em brincar com metáforas e conceitos de realidade duvidosa enquanto esquecem que teoricamente estão falando de um objeto muito concreto: o aparelho psíquico humano, como funciona de fato a psique em cada indivíduo da nossa espécie.

Eu fico triste de ver o desprezo que a comunidade neurocientífica tem pela psicanálise, que cada vez mais é tomada como pseudociência. Acho que se tem muito a perder aí, a psicanálise enormemente por ignorar um paradigma que a deveria fundamentar, e as neurociências por ignorarem a estrutura simbólica fina que a relaciona com as representações da consciência, dos sentimentos e da linguagem. A responsabilidade desta situação a meu ver é de ambos, mas primariamente dos psicanalistas que não se propõem a testar suas hipóteses, formulá-las claramente e estruturar suas teorias formalmente. Uma das grandes dificuldades da psicanálise na minha opinião é sua imprecisão linguística, e já que aparentemente não é derivada de inabilidade dos seus autores, interpreto que possa ser algum tipo de mecanismo de defesa que protege uma auto-estima insegura com um obscurantismo pedante por ter medo de que afirmações mais claras e assertivas possam expô-los à refutabilidade das ciências comuns. É claro que uma afirmação precisa verdadeira, por outro lado, é muito útil e valiosa.

Assim sendo, à defesa da minha tese de que a psicanálise é valiosa enquanto ciência do domínio simbólico psíquico, vou propor algumas afirmações que julgo serem significativas, razoavelmente refutáveis, e que até onde sei estão em bom acordo com a teoria psicanalítica convencional. Em especial, acho que muitas delas são suscetíveis a testes de neuroimagem, experimentos comportamentais e testes práticos simples, é claro, acompanhados de uma análise estatística:

- A vida mental consciente é regulada de um sistema que restringe ou bloqueia o acesso a determinadas representações de forte conotações emocionais ou morais negativas.
- Representações "expulsas" da consciência tem um acesso voluntário mais difícil (resistência) até que consiga ser conscientizado. Obs: Há casos documentados semelhantes em pacientes com anosognosia.
- Conflitos e bloqueios simbólicos podem ter consequências sobre a mobilidade motora voluntária (histeria).
- Representações episódicas são frequentemente associadas a valores emocionais (gostar, desgostar, aversão, nojo, expectativas, frustração, humilhação, enaltecimento, etc) que influenciam na sua acessibilidade consciente.
- Representações associadas a valores emocionais semelhantes frequentemente se associam, a evocação de uma trazendo espontaneamente ou facilitando o acesso a outra. A associação livre muitas vezes revela este tipo de associação.
- Representações inacessíveis (recalcadas) muitas vezes se associam a outras transmitindo seu valor emocional a elas sem que elas pareçam ter um valor aparente. A lembrança da representação inacessível desfaz a associação.
- Intensidade emocional durante a lembrança é relevante para o alívio do sintoma (catarse).
- O conteúdo dos sonhos muitas vezes expressa desejos inconscientes transfigurados na forma de metáforas e metonímias.
- Episódios traumáticos recentes costumam provocar inicialmente sonhos pouco transfigurados. Isto deve aumentar a medida que o indivíduo re-significa sua experiência integrando a memória do episódio melhor com a do resto da sua vida.
- O padrão de relação com a mãe, especialmente na infância, forma um modelo fortemente determinante sobre os relacionamentos íntimos posteriores do indivíduo, que muitas vezes repetem padrões semelhantes (Complexo de Édipo). John Bowlby desenvolveu esta idéia na sua teoria do apego. Talvez estudos de neuroimagem fossem interessantes.
- A repressão moral feita pelos pais serve de base para a repressão moral própria sobre os conteúdos da consciência (superego).
- Existe uma energia sexual (libido) que pode ser liberada de diversas formas, das quais o ato sexual costuma ser uma das mais eficientes, mas que também poderia ser liberada por outras atividades prazerosas.
- Deve haver comportamentos típicos esperados em cada fase do desenvolvimento psicossexual segundo as questões simbólicas envolvidas (Freud),
- Mecanismos de defesa (Anna Freud) e seus deflagradores, seus determinantes ontogenéticos (repressão, negação, racionalização, projeção, idealização, fantasia, dissociação, etc...).
- Previsão dos sintomas neuróticos baseada em características de personalidade do paciente.
- Prognóstico dos sintomas baseado no tipo de temas abordados em terapia e de personalidade.

Sem isso

por Karynn

Eu nao quero ser um cogumelo
Não quero ser um prego
Não quero ser um cordão de umbigo
Não quero ser uma casa de botão
Nem um botão

Não quero ser uma uva passa
Nem mesmo uma alpargata
Ou ainda uma dobradiça
Também não quero ser uma colher de sopa
Não quero ser aquela moça
Nem sua melhor amiga

Não quero ser uma hortaliça
Nem quero ser um mapa mundi
Tampouco um professor
Ou, do professor, o filho

Não quero ter o seu estilo
Quero muito ser exatamente eu mesma
Só e impreterivelmente isto
Mas sem estes desesperos
E sem tantos sentimentais impecilhos
Boicotando quaisquer ameaças de bons momentos
E umidecendo frequentemente os meus cílios

Um exemplo filosófico

por Karynn

As vezes um certo mau humor aparece como a primeira sensação ao acordarmos, talvez derivado de uma espécie de incômodo ou desconforto mental, uma intolerância ao enfileiramento sistemático e previsivelmente rítmico de fatos repetidos gerados por regras comumente absurdas.
O mau humor senta-se a mesa pretendendo distrair-se com o desjejum para finalmente ignorar tudo o que atrapalhe o projeto de um bom dia, quando alguem interrompe o silêncio digestivo dizendo:
- Credo! Comer salada no café da manhã ?!
O mau humor olha para seu potinho com salada e reflete um pouco. Conclui que por estar ingerindo basicamente algumas vitaminas e sais minerais, uma pequena quantidade de carboidratos e proteínas, e água, sua digestão será bem fácil. Observa que a boca que arremessou o espanto com a presença da salada no desjejum está prestes a se encher de pão, margarina, presunto e queijo, que são alimentos bem aceitos na ocasião, embora exijam um considerável esforço digestivo para sintetizar: gordura artificial estranha ao organismo, uma fatia de animal morto que depende da atuação de enzimas específicas, uma massa cheia de carboidratos, e uma fatia amarela de gordura animal sólida (saturada) e cheia de colesterol.
Não percamos tempo discutindo se a refeição matutina deve ser "leve" ou "pesada", pois parece que a aceitação de um alimento, ao menos neste caso, depende muito mais do seu valor cultural do que nutricional.
Muitas vezes não há a menor preocupação com o sentido dos hábitos, e apenas se efetua a propagação deles. O mau humor irrita-se com esta constatação e demora um bom tempo para começar a se transformar em comodismo.
Com estas palavras pretendo ilustrar o que entendo por filosofia. Para mim, a reflexao feita pelo mau humor é uma atitude tipicamente filosófica. Este tipo de exercício costuma ser evitado pela maioria das pessoas, o que contribui para a perpetuação de um sistema que difunde uma série de preconceitos sem sentido.

Algumas reflexões sobre o problema mente-corpo

por Leo

(também publicado no blog Brainstormers)

O problema mente-corpo questiona como a mente, aparentemente imaterial, se relaciona com o corpo, isto é, como ela depende dele e quais as relações causais entre os dois. Falarei mais especificamente da relação da consciência fenomenal, que compreende as sensações, os qualia, enfim, aquilo que se sente. De que maneira e onde nosso corpo gera estas sensações imateriais? Elas são em algum sentido independentes dele? Poderíamos construir máquinas com estas sensações?

Vou assumir nesta reflexão que o que chamamos de consciência fenomenal não é uma ilusão, isto é, que ela tem algum tipo de realidade objetiva que corresponde ao que percebemos subjetivamente como consciência e que dá significado a frases como "ele é consciente" e "cachorros devem ser conscientes".

Como mencionei anteriormente, acho que um fato potencialmente muito importante na questão da consciência fenomenal (qualia) é que cada um de nós reconhece tê-la e experenciá-la, e sabe portanto que tem qualia, mostrando que se não é fisicamente necessário, é pelo menos efetivo que em nós seres humanos os qualia estão associados a processos físicos no cérebro.

No meu entendimento isto torna o chamado argumento epifenomenalista pouco plausível. Ele diz que poderia ser que o cérebro de alguma forma gere consciência sem que esta tenha qualquer consequência causal sobre ele, ou seja, o cérebro provoca a consciência, mas a consciência nada faz sobre o cérebro. Ora, se a consciência não atua sobre o cérebro, é extremamente improvável, surpreendente e coincidental que nosso cérebro atue como se fosse capaz de "percebê-la". Além disso, se nosso reconhecimento e relato de consciência é consequência isolada do cérebro e nada tem a ver de fato com ela, não temos nenhum motivo para crer que temos alguma consciência, e postular que ela exista se torna irrelevante. Assim, enquanto é possível que o cérebro gere consciência sem que isto tenha nenhuma consequência causal necessária sobre ele, esta proposta parece não ter nenhum suporte*.

Suponho então que o processo da consciência tal como ocorre no cérebro humano tem consequências físicas. Assim sendo, se supusermos que o sistema físico do cérebro pode ser simulado computacionalmente com uma razoável precisão, a simulação deverá ter exatamente o mesmo comportamento de um cérebro, inclusive o de reconhecer a própria consciência. Como supomos que este reconhecimento se dava originalmente em função do próprio fenômeno, temos de admitir que a simulação simula também pelo menos os processos físicos provocados pela consciência.

Vamos analisar então estas suposições, cenários possíveis e quais suas consequências sobre o entendimento da natureza da consciência (1=sim 0=não):

É possível simular o cérebro num computador convencional qualquer com exatidão suficiente para reconhecer a própria consciência?
0. É possível simular o cérebro em algum outro sistema físico artificial (por exemplo, num computador quântico ad hoc)?
0.0. Então o funcionamento do cérebro deve depender de alguma propriedade muito especial do cérebro estranhamente irreprodutível em sistemas artificiais (possivelmente fora da física convencional).
0.1. Então o funcionamento do cérebro depende de propridades físicas muito especiais que não talvez não possam ser reproduzidas em sistemas computacionais quaisquer. Porém, são reprodutíveis em alguns sistemas físicos.
Neste caso, a consciência pode ser um processo material (por exemplo algum tipo de reação, partícula ou campo), possivelmente revelando novos princípios físicos, ou hipercomputacional (requer capacidade computacional superior a de uma máquina de Turing). Em qualquer dos casos, poderemos dentro dos seus limites descobrir as relações entre este tal processo ou computação e os estados conscientes no nosso cérebro e contruir máquinas conscientes, embora possa ser bastante difícil e trabalhoso.
1. Os processos físicos relevantes às consequências da consciência são suficientemente simuláveis, mas... estamos simulando juntamente também a própria consciência, além de seus efeitos físicos?
1.0. Epifenomenalismo: Sistemas podem apresentar todas as consequências de se ser consciente porém sem tê-la. De maneira que não temos nenhuma evidência de que exista nenhuma outra consciência além da nossa (se é que podemos confiar na existência da nossa)*.
1.1. O computador da simulação é plenamente consciente e a consciência é portanto uma propriedade funcional dos sistemas físicos. Podemos construir seres conscientes à vontade, bastando que descubramos qual é esta propriedade e como ela se associa ao sistema de reconhecimento de estados conscientes no nosso cérebro.

* Vou admitir uma possibilidade um pouquinho plausível para a consciência que ainda tornaria uma forma de (pseudo)epifenomenalismo plausível: a consciência poderia ser um processo que enquanto no nosso cérebro ela certamente tem consequências causais, elas são muito sutis e dependentes de propriedades muito específicas e delicadas da arquitetura do nosso cérebro (porém ainda presentes na maioria de nós). De maneira que um sistema físico que reproduzisse o cérebro pudesse reproduzir a arquitetura grossa suficiente para o comportamento de reconhecimento da consciência, mas insuficiente para que ela provocasse consequências causais sobre ele. Mas acho que se trata de uma hipótese quase tão implausível quanto a primeira.

Como argumentei, acho o epifenomenalismo implausível, mas creio que infelizmente não temos maneiras de refutá-lo; a pergunta 1 não me parece ser empiricamente testável. A possibilidade de o funcionamento do cérebro depender de alguma propriedade muito especial possivelmente fora do nosso conhecimento físico convencional (por exemplo, a necessidade de uma alma encarnada) também parece possível, embora dificilmente confirmável (mesmo que descobríssemos o fenômeno bizarro, seria necessário um princípio mais fundamental para garantir que ele é necessário para a consciência em todos os sistemas físicos).

Portanto, se não cometi nenhum erro, vemos que se admitirmos que a consciência fenomenal de fato existe, e que não haja uma razão muito misteriosa para não sermos capazes de simular o cérebro, provavelmente seremos capazes de decifrar os princípios que vinculam a consciência fenomenal com seus substratos, e construir máquinas conscientes, provavelmente também possibilitando que futuramente as consciências humanas vivam eternamente na forma de máquinas, como prevê Kurzweil, entre vários outros.

Obs: Meu palpite é que somos completamente simuláveis por computadores convencionais (1.1).

Sobre o sentido da vida

por Leo

(também publicado no blog Brainstormers)

Há algum tempo que tenho pensado sobre este assunto e acho que já tenho algo a dizer, embora não tenha deixado de ser uma angústia existencial minha. Antes de mais nada, acho importante notar que há 3 diferentes (embora relacionados) "sentidos da vida"; o sentido da vida individual ("Por que e para que estou aqui?"), o sentido da existência humana ou dos seres vivos em geral ("Por que e para que estamos todos aqui?") e o sentido da existência do universo em geral ("Por que e para que as coisas todas estão aqui?"). São questões diferentes e com tipos de resposta um tanto diferentes, na minha opinião.

Primeiramente, quero esclarecer o que entendo por "sentido". Dizemos que algo faz sentido quando forma um todo coeso, significativo e coerente, com propósito. Assim, o sentido da vida seria algo que daria a ela um propósito ou pelo menos explicaria sua forma e razão de ser.

Pode parecer estranha a proposta de que as coisas tenham um sentido, afinal, por que teriam? Sentido parece ser uma construção tipicamente humana, uma abstração que criamos para entendermos e racionalizarmos as coisas, então por que as coisas não-humanas haveriam de ter algum sentido? É bem possível que não tenham. Mas é igualmente estranha a mera existência e forma das coisas, isto é, por que existem coisas, existem estas coisas e existem desta particular maneira? De forma que não há saída, ou nos contentamos com uma realidade dada sem explicação, ou inventamos uma. Esta é minha proposta.

É bastante difícil saber se a existência do universo e das coisas em geral faz algum sentido, principalmente diante do nosso enorme desconhecimento e insignificância nele. Acho que só podemos especular, nos contentando com o pouco que sabemos. E o que sabemos é bastante desanimador, o universo que vemos é espacialmente imenso (quiçá infinito), um vazio enorme com umas nuvenzinhas de matéria aqui e ali e parece ter surgido muito rapidamente há alguns bilhões de anos atrás de um estado quente e concentrado e desde então tem se espalhado e expandido, cada vez mais rápido, até que eventualmente tudo se encontre muito separado e frio (se nada de inusitado aparecer no caminho). E nós somos uma porção de sistemas organizados auto-replicantes que surgiu por acaso num planetinha e, até onde sabemos, intrigantemente só neste. Me parece uma visão muito parcial para tirarmos grandes conclusões, mas eu chutaria que qualquer que seja o sentido da existência do universo, ele não tem um papel importante para nós. Não vou especular mais sobre isto agora, mas me parece muito intrigante este sistema todo, e acho que cada elemento de estranhamento é um indício de algo que não conhecemos bem.

O sentido da existência humana parece algo um pouco mais paupável. Embora observando nossos hábitos e atividades não seja óbvio que estejamos manifestando ou seguindo uma tendência mais geral (recomendo este vídeo ótimo - Dance monkeys dance - para uma breve visão geral, e o filme "O sentido da Vida" do Monty Python). De fato, acho que esta é uma questão em aberto. Podemos dizer que há muito progresso na nossa civilização, à medida que experimentamos e acumulamos conhecimento as coisas vão ficando mais complexas; nosso entendimento da natureza, nosso entendimento de nós mesmos, nossos valores e crenças, nossos relacionamentos, nossas atividades, nossa tecnologia, nossa organização social, mas não é transparente a que fim nos direcionamos, a complexificação não é um fim em si. Poderia se sugerir que procuramos qualidade de vida, mas parece claro que enquanto possa haver um aumento paulatino neste sentido, não há uma preocupação geral direcionada a isto. Talvez tenhamos de pensar de que de fato não haja uma motivação maior, um objetivo implícito, um plano mestre; que a nossa civilização simplesmente segue uma dinâmica interna própria, e que seu rumo é determinado pela turbulenta sucessão de poderes, valores e idéias que nela emergem. Embora uma visão assim tão pouco estruturada da sociedade possa ser um pouco simplista, acho que ela mostra um aspecto importante, o da competição e propagação memética.

Podemos ver a sociedade em vez de como uma coleção de indivíduos, como uma coleção de idéias competindo para se propagar pelo maior número de mentes. Cada um de nós se identifica com um conjunto de valores, idéias, crenças, hábitos e sentimentos (memes) e, querendo ou não, nós os representamos ao exercermos nossas atividades e ao interagirmos com outros indivíduos, cada uma de nossas tentativas e sucessos é direta ou indiretamente feita em favor deles. E nossos memes não estão sozinhos, cada um deles tem parentes próximos em outros indivíduos. Nós não sobreviveremos, mas alguns de nossos memes sim. De maneira que embora muitas vezes de forma pouco consciente e socialmente organizada, nós propagamos parte daquilo que somos e representamos, e o fazemos coletivamente, sem nos apercebermos.

A existência humana não é a mera existência de seres humanos, é principalmente a existência de nossos memes, sem eles somos literalmente só um bando de primatas fazendo coisas sem significado. Nossos memes dão sentido a nossas ações, fazem com que procuremos e tentemos conseguir coisas. Assim, acho que o sentido da existência humana é dado por nossos memes, e o destino dela será determinado pelos memes que forem mais bem sucedidos. Se o destino da humanidade não estiver pré-determinado por nossa natureza ou condições, ele está aberto ao que fizermos dele, e assim aos memes que se fizerem mais realizados. Talvez seja difícil ver um sentido na nossa existência porque ele está sendo feito, ainda está em formação.

O sentido da vida individual me parece o problema mais interessante dos três. Todos nós que estamos vivos temos um problema a resolver: diante da nossa situação e perspectivas, o que fazer com nossas vidas? O sentido da vida individual é aquilo que faz com que fazer algumas coisas pareça ser melhor do que fazer outras. De uma perspectiva subjetiva, acho que a resposta não é tão difícil, temos uma oportunidade de tempo que podemos preencher da maneira que quisermos (e conseguirmos), e assim, devemos procurar viver da melhor maneira possível, fazer aquilo que mais pareça valer a pena, que torne a vida interessante e atraente; viver intensamente, o que quer que se entenda por isto. É uma concepção pessoal que pode ou não incluir fazer sexo, ouvir música, comer, usar drogas, apreciar coisas, crer em coisas, sentir, amar, interagir e se relacionar, fantasiar, jogar, meditar, refletir, viajar, conhecer coisas novas e qualquer outro tipo de sensações, concepções, sentimentos e estados mentais que tornem a experiência subjetiva mais agradável, diversa, intensa e/ou complexa. A vida subjetiva é aquela que de fato nós vivemos, e parece um tremendo desperdício viver uma vida que não é boa para você.

O problema da perspectiva subjetiva é que ela não precisa ter qualquer relação com o mundo, ela só depende de como o sujeito se sente, não importa se causado por um estilo de vida maravilhoso, por uma overdose de drogas ou por um eletrodo implantado no seu cérebro. Por esta insuficiência da subjetividade, acho que a vida individual deve ter também um sentido objetivo, deve-se querer fazer diferença no mundo, e com isto quero dizer propagar nossos memes. Acho que o sentido objetivo da vida individual é social, enquanto nosso corpo é mortal, nossos memes (e genes se você tiver filhos ou parentes) persistirão. Como somos aquilo com que nos identificamos, a maneira de se fazer existir no mundo é expressar seus memes, isto é, as coisas que nos fazem sermos o que somos, o que cremos, pensamos, sentimos, achamos. Expressamos nossos memes vivendo, atuando sobre o mundo, propagando-os sobre outros indivíduos. Assim, acho que o sentido objetivo da vida individual é este, atuar sobre o mundo de acordo com quem você é, modificar o mundo da maneira como acha que ele deve ser modificado, participar, contribuir. Há algumas coisas para se observar neste sentido; acho que para sermos eficazes em mudar o mundo devemos procurar certos tipos de atuação, em especial aquelas que a nós se apresentarem como de maior interesse e nas quais temos maior aptidão, as com melhores expectativas e menor risco, as de realização mais próxima e concreta, as menos exploradas, e de maior impacto e com efeitos mais duradouros. Se estamos querendo fazer diferenças, precisamos pensar em termos de consequências. É claro,o juízo do que é melhor a ser feito é pessoal.

Em poucas palavras, acho que as coisas tem um sentido e razão de ser. O universo ainda é um grande mistério, a humanidade é uma pergunta em aberto e nós fazemos nossa razão de ser enquanto tentamos ser felizes e melhorar o mundo, cada um a sua maneira.


[the End Of The Film]
Lady Presenter: Well, that's the end of the film. Now, here's the meaning of life.
[Receives an envelope]
Lady Presenter: Thank you, Brigitte.
[Opens envelope, reads what's inside]
Lady Presenter: M-hmm. Well, it's nothing very special. Uh, try and be nice to people, avoid eating fat, read a good book every now and then, get some walking in, and try and live together in peace and harmony with people of all creeds and nations.

de Monty Python, The Meaning of Life



Adendo (8 de abril de 2009):


Convém mencionar que há pelo menos 3 usos diferentes de “sentido”:
- Atribuições normativas do tipo “você deve fazer X”, sejam elas determinadas por um sistema ético ou por um metafísico.
- Propensões materiais do tipo “você, em virtude do que é, acabará por fazer X”, mais ou menos como a noção de função em fisiologia, algo como “o sentido da existência das asas é propocionar o vôo”.
- Resultados históricos do tipo “você serviu para que X ocorresse”, assim como a extinção dos dinossauros serviu para a diversificação dos mamíferos e o consequente surgimento do homem.
Na ausência de evidências materiais claras da existência de sentidos do primeiro tipo, minha intenção foi falar do segundo, com alguma base no terceiro. Isto é, em função do que são o universo, a coletividade humana e o indivíduo, para onde eles tendem a ir? O que eles tendem a favorecer e realizar? A que propósitos parecem servir?

Acho que um dos “sentidos” deste texto foi dizer que para mim o sentido da vida não é algo externo a ela, o sentido faz parte dela, é integrado a ela, embora exercê-lo eficientemente possa demandar alguma atenção especial.

Não falei sobre o sentido dos seres vivos em geral. Talvez isto mereça uma discussão maior, mas acho que podemos dizer que a maioria dos seres vivos “serve ao propósito” de propagar seus genes, e ocasionalmente algum outro tipo de organização, como memes, o que cai na idéia de se propagar um pouco do que são e representam.

Acho que a idéia de tomar a propagação memética como uma competição casual possa ser pouco realista, tanto nossas mentes como nossa sociedade são bastante estruturadas, e claramente há memes mais eficazes em se reproduzir do que outros, muitas vezes aproveitando certas particularidades do nossos sistema cognitivo ou ambiente social. Além disso, temos uma autonomia considerável em escolher que memes adotamos, e esta escolha não é aleatória, escolhemos nossas idéias, crenças, etc, porque fazem mais sentido, são mais agradáveis ou frequentes e descartamos outras que não satisfazem a nossos critérios, de maneira que há uma forte interação entre as entidades físicas, biológicas, sociais e meméticas.

Talvez possamos tentar identificar algum sentido na existência humana observando o resultado líquido da atividade produtiva de nossa sociedade, isto é, desprezando-se toda a atividade humana voltada a manutenção do status quo, o que sobra? A que direção nossa atividade diferencial caminha, nos vários aspectos que possamos considerar? Alguma tendência é consistente? Estaríamos caminhando à mera exploração ou diversificação do espaço de possibilidades humanas? A seleção natural também não parece ter tendências muito claras, os seres vivos parecem ocupar todo nicho que pode ser explorado, estaríamos nós também fazendo um caminho aleatório?

O problema do sentido da existência humana parece ter uma natureza intrinsecamente motivacional, parece estar intimamente relacionado ao que nos move, ao que nos interessa, aos tipos de coisas que atendem ao sentido subjetivo da vida individual. Porém, é algo também bastante difícil de responder, uma vez que exceto pelas coisas mais inerentes a nossa natureza (por exemplo, o bem-estar) nossas motivações são também bastante dinâmicas e mudam a si mesmas recursivamente, um interesse levando a um outro, de maneira às vezes bastante não-linear, tornando sua previsão bastante difícil. O problema se agrava ainda mais conforme nos tornamos mais capazes de mudarmos nossa própria natureza. Seria possível conservar algum sentido ao sermos capazes de escolher livremente nosso próprio sentido? Seria desejável podermos escolher qualquer sentido? Todos os sentidos são igualmente arbitrários? Isto faz alguma diferença? Deveríamos nos preocupar com isto?

A utilidade e a relevância na pesquisa universitária

por Leo

Publiquei este post também no blog Brainstormers, onde espero receber mais comentários.

Fico bastante intrigado pela quantidade de pesquisas e teses que me parecem não ter nenhuma preocupação em trazer algo relevante ou útil à sociedade ou mesmo ao conhecimento científico (eu daria alguns exemplos, mas não quero que ninguém se sinta ofendido, cada um sabe o que faz). Isto é ainda mais alarmante se considerarmos que são o produto de anos de dedicação, usando recursos públicos (normalmente financiado por bolsas) e no lugar de outros tipos de pesquisa.

Não acho que deva ser negado o direito de se pesquisar um assunto que se queira, mas acho que a situação chega a uma proporção irracional. Não vejo um incentivo e nem mesmo uma preocupação em pesquisar assuntos de importância social e pior, ocasionalmente encontro até pessoas relutantes em fazer qualquer pesquisa com aplicações práticas. Não vejo nenhum sentido nisso. Acho que nos preocuparmos em fazer pesquisa útil e relevante não é uma subordinação ao mercado, ou às pressões da sociedade, é uma opção ética: é escolher utilizar uma oportunidade em favor de fazer algo bom para alguém.

Principalmente na nossa sociedade, onde vemos tantos problemas e não sabemos como resolver. Acadêmicos não servem só para especular, criticar e "pensar positivo", servem também para resolver problemas. Dedico este post principalmente às pessoas das áreas de ciências sociais: sociologia, política, economia, filosofia e afins, por acreditar que supostamente são as pessoas para as quais esta questão é mais urgente e importante. Mas acho que minha crítica se aplica a todas as áreas de pesquisa.

Pode ser uma perspectiva pessoal minha, mas acho que o conhecimento humano tem valor à medida de que é útil. O conhecimento não é um objeto meramente estético, não conhecemos por conhecer; conhecemos para entendermos melhor como funciona o mundo, para vivermos melhor nele, para resolvermos nossos problemas e conseguirmos criar coisas novas. O conhecimento não precisa ter uma utilidade prática imediata, mas deve ter alguma. E se a universidade é o lugar onde supostamente o conhecimento é feito e promovido, acho que é o lugar onde deveria ser feito de modo mais útil.

Não gosto muito de prescrever coisas, mas tenho para mim que as pesquisas universitárias deveriam atender a pelo menos um de três critérios, nesta ordem de prioridade:
1. Ajudar a resolver um problema humano ou a desenvolver algo que melhore a vida das pessoas.
2. Ajudar a responder uma pergunta fundamental ou fortemente relevante ao desenvolvimento do conhecimento científico.
3. Investigar e explorar algo cujo potencial ainda não está bem demarcado.

Assim, acho que contextualizar e priorizar as pesquisas em termos destes 3 critérios é fundamental, e que todo pesquisador deveria se orientar por eles. Também não acho que isto seja restrito à pesquisa, os cursos de graduação também deveriam ter este viés, os alunos deveriam ser incentivados a propagar e utilizar seu conhecimento, deveriam saber como aplicá-lo. Creio que isto teria muitos frutos positivos, a curto, médio e longo prazo.

Num aspecto mais individual, acho que cada um deveria escolher dentro destes critérios, o tema de pesquisa em que se julgar mais competente e promissor, de acordo com as próprias capacidades, conhecimentos, interesses e valores. Ou seja, deve-se investir nas coisas que aparentam ser mais promissoras, favoráveis e interessantes.

Ainda estou na graduação, mas acho absurdo saber que a maioria das teses de pós-graduação nunca são relidas, e de ver a abismal ineficácia causal de boa parte do mundo universitário sobre a vida das pessoas, tanto material quanto ideologicamente. Parece-me que as pessoas competentes da universidade são insistentemente atraídas a nichos onde podem ter um profundo envolvimento de suas capacidades intelectuais com o menor impacto possível sobre a realidade.

Gostaria de saber o que pensam a respeito, principalmente os que discordam.

p.S.: Uma visão um pouco idealizada da ciência é a de que ela consiste em decompor grandes questões difíceis e complexas sobre a realidade em pequenas perguntas mais fáceis de serem respondidas pelos métodos de investigação científicos. Acredito que tanto as questões da ciência como os problemas humanos tem uma estrutura hierárquica deste tipo. Acho que é um exercício interessante tentar encontrar dentro de que grande pergunta e dentro de quais outras subperguntas se encontra sua pesquisa, para se saber quais delas poderão ser parcialmente respondidas com a resposta que obtiver.

p.p.S.: Adicionando contribuições posteriores (principalmente da Karynn), acho que poderia se estender ligeiramente os 3 critérios:

1. Ajudar a resolver um problema humano ou a desenvolver algo que melhore a vida das pessoas e/ou da sua relação com o meio ambiente e outros seres vivos.
2. Ajudar a responder uma pergunta fundamental ou fortemente relevante ao desenvolvimento do conhecimento científico ou filosófico.
3. Investigar e explorar assuntos cujo potencial e aplicabilidade ainda não estão bem definidos.

Convém também dar uma ênfase maior às questões e autores atuais os quais ainda podem ser influenciados pelos frutos da pesquisa.

Incompetência política

por Leo

Postei este post num outro blog, o brainstomers, onde espero receber mais respostas.

Este é um assunto do qual me envergonho e que me incomoda, principalmente nas épocas das eleições, por razões óbvias.

O fato é que sou completamente ignorante sobre política, ainda que eu ainda tenha algumas poucas noções teóricas, sinto-me completamente perdido e despreparado em relação a votar, a opinar e interpretar acontecimentos políticos, quanto mais a discuti-los.

Resolvi escrever este post para expor o problema e pedir por sugestões a respeito de como resolvê-lo. Embora eu o faça por motivos pessoais, tenho a convicção de que compartilho a mesma situação com muitas outras pessoas, admitidamente ou não. No meu caso particular, fui criado num meio com uma orientação política específica (de esquerda), porém sem forte embasamento teórico ou prático, e sem grande discussão de correntes e opiniões opostas ou diferentes. Hoje julgo que seguir a mesma orientação seria insatisfatório, por ela não se apresentar justificada para mim, porém não tenho um conhecimento significativo dela nem de outras. Tenho votado em branco ou justificado, nas últimas 4 ou 5 votações. Para mim isto significa que me considero tão pouco apto a decidir que considero a opinião coletiva como melhor que a minha, qualquer que seja ela. Esta sensação de imensa ignorância me angustia, desejo sair deste estado de tábula rasa política. Ainda que eu possa pensar que minha participação possivelmente seja pouco relevante.

Como se não bastasse a minha ignorância sobre teoria política, economia, administração pública, estado, direito, constituição e legislação, e coisas afins, a ignorância sobre a história política brasileira, o cenário atual, as histórias dos candidatos e partidos, a situação do país hoje, seus problemas e perspectivas, que são, de certa forma, conhecimentos mais "objetivos"; percebo que o problema de competência política ainda traz questões mais pessoais como, valores políticos (qual o papel do estado, como deve ser organizada a sociedade, qual deve ser a atitude do país em relação aos outros, etc), valores morais (o que deve ser valorizado, promovido, tolerado e desvalorizado e reprimido na sociedade), quais são as fontes de informação confiáveis e quais são seus viéses e tendências e como identificá-los, e finalmente, como resolver o problema prático de se votar, de formar uma opinião, e de interpretar os acontecimentos políticos.

Olhando assim, parece uma tarefa gigantesca, o suficiente para um curso de graduação. É claro, não acredito que a maioria das pessoas de 16 ou 18 anos já tenham noções boas destas coisas, e também não acho que elas sejam todas necessárias; todos nós somos um tanto pragmáticos em nossas decisões, esta é só mais uma delas. Mas o problema não deixa de ser complicado, e não quero parar minha vida para resolvê-lo, de modo que peço ajuda para que possa resolvê-lo aos poucos, e de uma maneira menos tortuosa. Afinal, o problema é complicado a ponto de ser desanimador, de parecer não valer a pena, mas vou tentar persistir. Dividi o problema da maneira como estruturo minha ignorância a respeito das coisas que julgo que sejam relevantes:

Conhecimentos teóricos relevantes
- Política
- Estado
- Administração pública
- Organização social
- Direito
- Economia
- Relações internacionais
- Noções de educação, saúde e saneamento, urbanização, segurança pública e nacional, indústrias, comércio, pesquisa e tecnologia, entre outros.

Conhecimentos concretos relevantes
- Sistema político brasileiro
- Estrutura do governo brasileiro
- Divisão de atribuições e poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário, União, Estado e Município, Subprefeituras, etc.
- Constituição
- Legislação
- Principais instituições e empresas estatais e terceirizadas responsáveis por serviços essenciais.
- História política brasileira, principalmente os últimos 50 anos.
- Cenário político atual. Partidos, candidatos, governantes, suas relações, disputas, conflitos. Denúncias e suspeitas de corrupção.
- História e proposta dos atuais governantes e partidos (estatutos), seus rivais, e outros candidatos e partidos de interesse. As políticas propostas e implementadas por eles e seus rivais, seus sucessos, fracassos e críticas.
- Acontecimentos recentes relevantes.
- Situação do país, estado e cidade hoje. Seus problemas e possíveis causas, suas perspectivas futuras, possíveis soluções, propostas para o desenvolvimento. Políticas implantadas em cada setor, seus sucessos, problemas e críticas, etc.
- Cenários políticos e acontecimentos em países semelhantes ao Brasil, países de importância ao Brasil (vizinhos, importadores, exportadores, etc), países com modelos políticos de interesse.

Valores políticos e morais
- Qual deve ser o papel do estado, até que ponto ele deve intervir e garantir direitos individuais, bem-estar social, organização social, desenvolvimento econômico, etc.? Como deve ser organizada a sociedade? Qual deve ser nossa atitude em relação aos outros países?
- O que devemos valorizar e desvalorizar, promover, tolerar e reprimir, na sociedade, e nas políticas de cada setor, na educação, na saúde, na segurança pública, nos direitos e legislações, na atuação das indústrias, comércios, nos serviços públicos, etc.?
- Devemos decidir politicamente no interesse de quem? No nosso? No dos outros à medida que nos importamos com eles? Nos da população em questão?
- Devemos ser pragmáticos, racionais ou empíricos nos julgamentos políticos?

O problema da tendenciosidade e da informação confiável
- Onde obter informação relevante?
- Quais os meios mais confiáveis, seguros para se obter informação sobre acontecimentos de relevância política?
- A que viéses estão sujeitos? Quais críticas são feitas a eles?
- Que pessoas são úteis para se informar?

Problema práticos
- Como escolher um candidato? Que características são desejáveis? Que características são e quais não são relevantes?
- Pesquisas de intenção de voto (popularidade)
- Plano de governo
- Experiência e habilidade política (negociação, retórica, diálogo, malícia, etc)
- Relacionamentos políticos
- Desempenho nos debates
- Perfil dos eleitores
- Patrocinadores da campanha
- Eficiência, prudência, agilidade, organização.
- Capacidade de ação diante de imprevistos e emergências
- Inteligência
- Interesses secundários
- Coerência
- Carisma e habilidades sociais, firmeza, ousadia, serenidade
- Honestidade e moral
- Princípios e fidelidade a princípios
- Partido e compromisso com o partido
- Como avaliar o desempenho de um governante?
- Plano de governo inicial
- Desempenho, eficiência
- Aprovação, críticas, popularidade
- Melhora durante o mandato e após ele.
- Aproveitamento de projetos de turnos anteriores.
- Discursos e desempenho público
- Como interpretar acontecimentos políticos? No que se deve prestar atenção? Em quem se deve prestar atenção?
- Como votar? Votar é relevante? Que outros tipos de atuação política uma pessoa na minha posição pode exercer? Quando votar em branco?
- Como decidir sobre assuntos políticos? O que procurar? Quais os aspectos relevantes?

A pergunta fundamental: Como desenvolver competência política? Qual a maneira mais curta e eficiente?
- Estudar teoria política e econômica, e todas as outras coisas que listei acima.
- Ler planos de governo oficiais.
- Se informar com "pessoas competentes", de tendências políticas diversas.
- Acompanhar notícias dos grandes jornais.
- Se informar sobre a história de vida e o passado político dos candidatos principais, e à medida do possível de outros que possam vir a ser de interesse.

Enfim, listei uma quantidade enorme de aspectos e questões que acho relevantes às decisões políticas. Não sei quais são mais importantes, quais deixei de listar, quais são desimportantes, e muito menos quais são suas respostas. Peço por contribuições, opiniões, coisas afins.