Por que damos valor às vidas humanas? Por que achamos que o mundo deva ser justo? Por que devemos nos importar com a natureza? Quais as motivações das pessoas? E que nome dar a todas as coisas da vida que não entendemos, não sabemos descrever, mas com as quais temos de lidar o tempo todo?




Sobre o absurdo que é dizer "Se eu fosse você..."

por Karynn

"Se eu fosse você..." é uma expressão muito usada por pessoas palpiteiras e que adoram opinar sobre atitudes alheias.
Quando se diz isso, em geral, é com um tom de reprovação e superioridade. A pessoa quer dizer que ela teria agido de outra forma, a qual, na maioria das vezes, considera melhor.
Particularmente, essa expressão me irrita por dois motivos. Primeiro porque ela não tem o menor sentido, trata-se de algo tão irreal e metafórico quanto dizer que "esse ano passou mais rápido do que o ano passado", e depois, porque ela é usada com fins moralistas e para fazer julgamentos de acordo com valores particulares e pessoais que não deveriam ser tomados como referência na formação de uma opinião a respeito da maneira de agir do outro.
Inclusive, penso que qualquer sentença que contenha "Se eu fosse você..." deveria ser considerada uma sentença inválida, pois trata-se de algo impossível.
Imaginemos duas pessoas conversando:
-Fulano A, eu roubei uma barra de chocolate num mercado
-Fulano B, isso é errado.
-Ei sei, mas eu estava com muita vontade.
-Mesmo assim, não se justifica.
-Mas, fulano A, não teve como resistir, perdi o controle. Agora estou com medo de eles terem percebido, não poderei mais voltar àquele mercado.
-Pois é Fulano B, você está encrencado. Se eu fosse você eu não teria feito isso.
Se o fulano A fosse o fulano B ele teria exatamente a mesma história de vida que o fulano B, então, ele teria tido os mesmos traumas, os mesmos desejos, as mesmas oportunidades, tudo teria acontecido exatamente como aconteceu com o fulano B (consideremos que a formação da personalidade de uma pessoa seja bastante ou quase totalmente influenciada pelo meio em que ela viveu e por tudo o que aconteceu em sua vida), assim o fulano A não seria o fulano A, mas seria o fulano B, já que o fulano B é quem é por causa de sua história e de sua personalidade.
Quando alguém diz "se eu fosse você...", está dizendo algo que jamais poderia acontecer porque se ela fosse o outro ela seria o outro e não seria ela, então, provavelmente ela faria a mesma coisa que o outro fez, pois pensaria do mesmo jeito que o outro pensou, faria as mesmas associações e teria os mesmos conceitos.
É muito fácil dizer como as pessoas deveriam ter agido, é só imaginar qualquer coisa que pareça certo e dizer que você teria feito dessa tal maneira certa. Mas isso além de ser desagradável é incoerente e inútil. Com que objetivo se diz isso? Acaso espera-se que ao se dizer que teria agido diferente a outra pessoa pense que essa é uma boa razão para que ela o fizesse também?
Se alguém me diz: "Se eu fosse você, blá blá blá...", eu respondo: "Se você fosse eu, não seria você, seria eu, portanto, pensaria e agiria da mesma maneira que eu".

Lei de Escambo

por Karynn

O que sou eu?
Um pedaço de carne potencialmente humano
Que se perdeu
Numa humanidade hipoteticamente justa
Que se dissolveu
Em mil litros de mentiras consideravelmente úteis
As quais, num museu
Enfeitariam paredes amigavelmente limpas?

Quem sou eu?
Um pedaço humano possivelmente inútil
Uma potência mental estritamente lúcida
Uma hipótese carnal consideravelmente válida
Uma mentira amigável nitidamente lúdica?

E se eu...
Apenas quisesse um buraco fundo
Para pensar, dormir e vagar sem rumo
Pra esquecer e fugir desse todo imundo
Pra sonhar, sentir e chamar de mundo?

Diriam que eu...
Estaria moralmente incorreta
Seria anti-eticamente alheia
Me considerariam futilmente indiscreta
E absurdamente feia.

Então, faz de conta que eu...
Sou uma peça indubitavelmente humana
Uma mente potencialmente ilustre
Alguém tecnicamente útil
Que vai descobrir uma forma cientificamente amável
De explicar esse amontoado asqueroso e sujo
Que se costuma chamar de mundo.

Corpo Estranho

por Karynn

Dentro de mim existe um buraco
Que não é exatamente físico
E nem seguramente diferente disso
Mas é dolorosamente extenso
E solitariamente infindo
E, na medida em que vivo,
E me transformo em movimento
Me perpetuo como um bicho
Dominado pelo instinto
De procurar qualquer tipo de preenchimento
Que amenize a dor do vazio
Que lateja no meu buraco imenso


Ele é praticamente infinito
Pois quanto mais o alimento
Mais o sinto vazio
Quanto mais o abomino,
Tanto mais ele me atormenta
Quanto mais o ignoro
Tanto mais ele grita
Grita dentro de mim
E o som incandescente que vaza pelos meus poros
E queima minha pele, meus pêlos e meus ossos,
Culmina nos meus olhos
Que continuam berrando
E me fazem sentir nítida,
Absurda.
E assim sou sentida.

Ele é tão explícito
Apesar de íntimo
Que me sinto constrangida
Com os seus barulhos, seus odores e seus indícios
Que se manifestam dentro e fora a de mim
E que me molestam
Como se não machucasse
Como se não doesse
Ter um buraco fundo
Se retorcendo no fundo de mim.

Como se não bastasse
O sofrimento por ser sedenta e inquieta,
Causado por um buraco involuntário e indiscreto,
Convivo com a possibilidade de ser imunda
Não por ter um buraco imundo
Mas por não fingir que ele é nulo
Não por ele fazer barulho,
Mas por eu não agir como se ele fosse mudo

Mas apesar de tudoQue o faz medonho
Não o odeio
Ele me faz sentir viva
Me faz sentir real
E, no entanto, não impede que eu me vista de sonhos
Ele é cru, é carne, é uma espécie de ferimento.
Mas é um tal sentimento
Quase responsável pela minha curiosidade em relação ao não vivido
É uma chaga maldita
Que me mantém viva.
E que por mais que doa,
Me faz ser diferente de tudo o que é inerte e sem vida
Não por eu ter um buraco,
Mas por eu não tratá-lo como hipótese descabida.

Um Problema sobre Eugenia

por Leo

Apesar de todo a repulsa gerada por essa palavra, a eugenia, não na forma de extermínio generalizado de um genótipo (genocídio), mas na forma da seleção natural dos mais adaptados ocorre na natureza e na sociedade desde sempre.

Além disso está incorporada na vida social, afinal discriminamos o tempo todo aqueles que tem melhores características físicas e intelectuais, os mais saudáveis e bonitos, caracteres que costumam ter uma fundamentação biológica nos genes dos indivíduos, para não falar da relevância destes no sucesso sexual. E essa discriminação é natural e importante no funcionamento da sociedade, os indivíduos simplesmente são diferentes. (não quero entrar na questão de quando é que discriminações são injustas)

No entanto, com o avanço médico e biotecnológico, a cada dia que passa temos mais plasticidade sobre nossos corpos e capacidades, podemos remodelar nossa aparência, utilizar acessórios que compensem incapacidades sensoriais ou motoras, suprir deficiências fisiológicas, e provavelmente em breve também neurológicas. Ao que tudo indica, é só questão de tempo (talvez bastante) para que possamos encontrar meios de corrigir ou mesmo superar nossas limitações naturais.

Isto é algo novo, no passado pessoas deficientes simplesmente não tinham oportunidade de vida, como ocorre na natureza, e acabavam morrendo cedo ou marginalizadas da sociedade, às vezes simplesmente por ter uma pequena deficiência fisiológica.

Assim sendo, cada vez mais temos condições tecnológicas de garantir bem-estar e longevidade às pessoas, com um impacto cada vez menor de nossos caracteres hereditários inadequados ou inconvenientes. Infelizmente não temos condições sociais para que todos tenham acesso a estes recursos, que são ainda muito caros, possivelmente em parte motivados por razões econômicas.

Creio que isso possa gerar um problema social no futuro. Todos nós que vivemos queremos o direito, se não temos o desejo, de nos proliferarmos, de nos reproduzirmos. E não gostamos que se intervenha neste direito, como também temos ódio de sermos discriminados negativamente por aquilo que consideramos ser nossos defeitos. Cada um de nós luta contra o mundo para viver uma vida boa, apesar de todas as dificuldades, e muitos de nós desejam ter a oportunidade de perpetuar este processo, que é inerente da vida. Com a exceção talvez dos que a vivam tão sofridamente que não desejem isto para ninguém. O problema é que, a sobrevida e proliferação dos indivíduos geneticamente desadaptados, em oposição à dura seleção da natureza, os torna cada vez mais presentes na população, isto é, a conseqüência da oportunidade dos desfavorecidos aumenta o número deles, agravando o problema.

É claro que deficiência depende de um critério, mas não se pode negar que vivemos num mundo onde uma vida de oportunidades é negada aos menos aptos. A vida de uma pessoa deficiente é mais difícil, e é essa a própria noção de deficiência, uma característica desfavorável, patológica, limitadora da capacidade e autonomia do indivíduo (comparada a dos outros). Pessoas com deficiências cada vez mais levam vidas quase normais, mas sofrem desvantagens competitivas e passam isso a sua prole. Estamos aumentando nossa diversidade genética tentando reduzir a pressão seletiva sobre os indivíduos, e isso gera uma população mais heterogênea em aptidão adaptativa, sem que a sociedade esteja receptiva a isso.

É uma questão ética bastante complicada, pois trata de se provocar um possível mal (desvantagem) aos descendentes, mas se por outro lado se proíbe, está se proibindo o caráter mais natural da vida, o de se reproduzir. Além de ser um problema social, pois estas pessoas sofreriam discriminação e provavelmente teriam menos chances, se acumulando nas classes de menor sucesso financeiro, cultural, etc. o que agravaria a situação, por terem então menos acesso à assistência específica que necessitam.

Como disse, a sociedade naturalmente discrimina e seleciona pessoas e seus genes, e às vezes intervém também na sua autonomia reprodutiva, veja o caso de pessoas de proximidade familiar que não podem se casar. A intervenção compulsória poderia atenuar o problema e até controlá-lo, mas com grande oposição e polêmica, talvez gerando uma crise social.

O aconselhamento genético seria uma solução interessante, mas no momento totalmente impraticável, exigiria uma reforma cultural e de infra-estrutura, para que as pessoas tivessem acesso fácil, de fato o fizessem, e tomassem as decisões adequadas. É possível também, que num futuro não tão distante nós sejamos capazes de manipular diretamente os genes de embriões e/ou diagnosticar facilmente anomalias genéticas. Isto seria uma tecnologia de grande utilidade, embora sua utilização geraria polêmicas semelhantes às atuais sobre o uso de células tronco.

Talvez o que eu esteja descrevendo seja um problema fictício que nunca venha a ocorrer, talvez já esteja ocorrendo, talvez ele se resolva naturalmente, mas creio que não.